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Contos sem nó

As minhas histórias

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22.03.20

Uma quarentona em quarentena


Lila

O mundo não vai voltar a ser o mesmo. O mundo como o conhecemos, acredito piamente, vai mudar de forma drástica. Nada vai voltar a ser como era antes.

Confesso que fui das pessoas que desvalorizou a situação da epidemia, agora pandemia, no início. Acho que só me caiu a ficha há pouco mais de uma semana, quando percebi que podia ficar afastada do meu marido, a trabalhar na Alemanha, por tempo indeterminado. Quando pela primeira vez na minha vida, vi as escolas a encerrar. Quando me vi à porta de um supermercado onde se entrava um a um, e me deparei com prateleiras vazias para determinados alimentos. A tensão que se sente dentro destes espaços, o medo estampado na cara das pessoas, deixa qualquer um alerta para uma situação muito critica.

Ficámos em casa, todos juntos, a partir do fim de semana passado. Eu pensei que ia dar um ataque de nervos ao meu filho adolescente, quando  na sexta-feira, e apesar de estar bem informado, me perguntou se podia estar com os amigos nesta pausa escolar. Expliquei que não, que não podia e que não era uma pausa escolar. Felizmente o amuo durou pouco mais de uma hora e tem sido bastante fácil mantê-lo em casa. Já me estava a imaginar a ter de seda-lo durante quinze dias, mas felizmente não foi preciso. As tecnologias ajudam bastante no contacto permanente com os outros e os trabalhos da escola e do conservatório, têm-no mantido muito ocupado. 

Tinha então outro desafio para superar. Um marido dado a ter bicho carpinteiro. Daqueles que odeia fins de semana em pijama, domingos a ver filmes debaixo da manta, tendo verdadeiras crises de urticária perante todo o tipo de programas caseiros.

E ele lá veio da Alemanha.

Primeiro, a alegria de tê-lo por perto, face à perspectiva de podermos ficar afastados e sem possibilidade de viajar durante este período.

Cinco minutos depois, o pânico de ficar fechada em casa com alguém que arranha a porta da rua e trepa pelas paredes, quando se vê confinado.

Não, não temos um cão.

Uma vez mais, a montanha dos meus receios pariu um rato e depois de uma pequena sessão de esclarecimento caseira, o bicho carpinteiro ficou mais ou menos adormecido.

Os dias não têm sido assim tão difíceis. Surpreendentemente.

Ainda não andámos à estalada nem uma única vez.

Temos posto toda a conversa do mundo em dia. Espero que não se esgotem os temas e fiquemos sem o que falar até ao final do ano. Nãaaao... acho que não corro esse risco.

A semana passou depressa. Cada um tem o seu trabalho remoto para fazer, o filho tem as tarefas da escola.

Não dispensamos fazer uma caminhada na serra que temos a sorte de ter aqui mesmo ao lado, sem tocar em nada nem em ninguém  e assim apanhar ar , sol (até já apanhámos chuva) e conseguir não arrancar todos os cabelos (ainda que para um de nós isso não fosse um problema). Enquanto arejamos a cabeça, a casa fica de janelas abertas de par em par, arejando também.

Nos meus tempos livres dedico-me a ler ou a ver algum episódio do “Las chicas del cable” (sim, deslarguem-me, a Casa de Papel ainda demora para estrear e ter visto as quatro temporadas de uma assentada fez-me ficar viciada no idioma vizinho. Deve ser mais ou menos o mesmo efeito que tem o açúcar no nosso organismo). Também tenho conseguido escrever, paixão antiga que tão bem me faz.  Mas estaria a mentir se não dissesse que aquilo que mais me tem ocupado o tempo é limpar, arrumar, organizar e lixar evangelizar a cabeça dos meus homens com as limpezas da casa.

Este vírus conseguiu despertar o meu distúrbio obsessivo compulsivo para limpezas com uma força extrema e quase descontrolada. Ora então é para lavar bem as mãos? Para desinfectar? Pois, e se eu lavasse as mãos e a casa toda? Não seria muito mais eficaz? Senhores da DGS, estão comigo? Dar um jeito em todos os armários da casa (e com um jeito quero dizer, esvaziar, limpar e voltar a colocar tudo lá dentro outra vez, sem deixar de obviamente acabar por deitar umas coisinhas que já não estão boas, fora), nas gavetas, nas prateleiras...não seria uma boa ideia para exterminar o vírus?

Bem, ao menos dei a minha contribuição. Muitas vezes. Em todas as divisões da casa. Não escapou um centímetro.

De nada.

E para a semana continuo. Que os armários da cozinha ainda não levaram um olho. E um pano com detergente.

Quando não estou a pensar em limpezas, lembro-me de que quando chegar a Páscoa, vou ter mais cabelos brancos do que o Álvaro Cunhal. E que daqui a pouco tempo vou ter que arrancar o verniz gel à cacetada. E só não corro o risco de o meu marido deixar de conseguir ver-me debaixo de um matagal de pêlo porque, esperta, já a contar com o Apocalipse, fiz laser há muitos anos e pêlo, é coisa que  não me assiste.

Já com a pedicura, que faço religiosamente todos os meses porque não gosto de pés em geral, nem dos meus em particular, e odeio especialmente, cortar unhas (o meu filho quando era pequeno tinha que esperar pelas vindas quinzenais do pai para ter alguém que lhe fizesse esta tarefa, eu não sou capaz), vamos ter problemas. Quando a minha pedicura abrir portas, estou certa de que posso chegar até lá agarrada às paredes, utilizando as minhas garras que serão, por certo, maiores do que as da águia do Benfica.

Uma vez mais constato que ser mulher é sempre mais complicado do que ser homem. Em todas as circunstancias. Esta não é excepção.

Tempos difíceis estes. Até as amêndoas da Páscoa não vão ser recomendadas. Se calha a partimos um dente, não vamos ter dentista para nos receber. Há que evitar riscos desnecessários.

Depois lembro-me de que até deve ser melhor cortarmos nos doces. Tenho tantos vestidos bonitos no armário e corro o sério risco de não conseguir entrar em nenhum deles quando isto acabar. Actualmente, os meus outfits  variam entre pijama e roupa desportiva. Felizmente, são tipos de vestuário que tendem a ser largos (o que nos vai dar uma falsa sensação de que estamos em forma). Zero maquilhagem. Cabelo sempre apanhado.

Uma sensualidade sem limites, agora que tenho marido permanente em casa. Pronto, tenho que confessar que depois do banho, não resisto a por um pouco de creme com brilhantes. Posso infectar-me mas vou com estilo e sempre em brilhos.

E já que falámos em comida, tenho que referir a maravilha que é fazer pequeno almoço, almoço, lanche e jantar TODOS OS DIAS DA SEMANA. Ainda por cima numa altura em que as idas ao supermercado estão limitadas. Eu sou péssima cozinheira, imaginação culinária zero, vejo-me e desejo-me para fazer o básico, assim que nesse aspecto, sofro um bocado. Ás vezes ponho-me a pensar que seria a altura ideal para aprender a cozinhar. Mas trinta segundos depois já não me parece grande ideia.

Outra que também está em grande sofrimento é a máquina da loiça. Passou de trabalhar 3 ou 4 vezes por semana para trabalhar todos os dias. Valha-nos o santo padroeiro da conta de electricidade. A passar o tempo todo em casa e rodeados de electrodomésticos...vai doer.

A maquina da roupa também não tem tido sossego. Ainda que seja uma monotonia as roupas que lava. Pijamas, robes, calças de fato de treino e t t-shirts. Primarks, Decatlons e Oyshos desta vida, aguardem-me, estas roupas vão acabar inevitavelmente cheias de borboto, desbotadas e simplesmente gastas depois desta quarentena. Vou estar lá caída de certeza, para renovar o stock.

(Nota de rodapé, continuo a receber de forma cruel as newsletters das minhas lojas favoritas, com novidades que eu não posso adquirir. Obrigadinha por isso.)

A televisão cá em casa vai estando apagada grande parte do tempo. Em alternativa ouvimos música. Eles tocam piano. As noticias em loop sobre o vírus não fazem bem a ninguém. Instituí só ver o noticiário da noite e  nem esse já consigo aguentar até ao final.

Outra coisa que tento conseguir limitar é a quantidade absurda de noticias  parvas que recebemos pelo telemóvel nos milhentos grupos de whatsap a que todos pertencemos. Se não fosse correr o risco de deixar de ter amigos, já tinha saído de fininho de todos eles.

Também outra grande odisseia tem sido ir às compras. A ideia de que se nos esquecermos de alguma coisa, não faz mal, voltamos lá depois, acabou. É coisa do passado. E ter sempre na cabeça a possibilidade de quando lá chegarmos já não haver legumes, ou fruta, ou carne, também atormenta. Bem sei, estava mais do que na hora de deixarmos de comer carne. Esta é só uma boa desculpa.

Para mim, a ideia de ir ao supermercado e abastecer a casa, está intimamente associada à protecção do meu ninho, daqueles que lá moram. Se me afectam esse sentimento, tiram-me uma parte de mim. Estou certa de que não sou a única a quem acontece.

Também tenho a certeza de que depois de tudo isto se vão fazer muitos estudos, muitas analises, que nos explicarão o porque de alguns comportamentos (o do açambarcar do papel higiénico intriga-me muito, confesso) e psicologia vai ter muito que fazer. Sugeria aqui que se lançasse uma linha de apoio psicológico à vitima de quarentena Covid 19. Não estou a brincar. Tenho a certeza de que existe já muita gente deprimida à conta do isolamento. 

Mas depois há dias em que nos dá para rir à gargalhada. Estamos sentados à mesa, os três, a conversar, e alguém diz uma coisa engraçada, ou lembramos-nos de algum episódio do passado. E rimos. Rimos muito. Ainda ontem disse ao meu marido que nos últimos dias tenho-me rido  muito, e com gosto. É capaz de ser dos nervos.

E é assim que nos vamos distraindo das verdadeiras preocupações.

A angustia vai-me chegando de quando em quando, acorda-me durante a noite, deixa-me calada durante o dia. Angustia de ter um pai diabético, com patologia cardíaca e na idade de maior risco.  De ter grávidas duas pessoas muito especiais na minha vida  (que altura tramada para se estar à espera de um filho). De saber a minha melhor amiga na linha da frente desta luta, todos os dias, corajosa e competente, mas em risco permanente (que orgulho, minha querida!). De pensar que a nossa vida profissional pode levar uma volta com toda esta revolução económica que se vai fazer sentir. Que este tsunami vai arrasar com grande parte dos pequenos e médios negócios que conhecemos. De pensar que algum de nós pode adoecer. 

Tenho conseguido combater os medos, não deixando que se apaguem. Precisamos deles para nos mantermos vigilantes.

Não queria cair no cliché de que o mundo estava a precisar de uma pausa, mas sou obrigada a reconhecer que sim (preparem-se, vem ai agora o momento "livro de auto ajuda"). No que me diz respeito, precisava de dar mais valor a coisas simples. Sair para tomar um café vai ser todo um acontecimento daqui a uns tempos. Ir ao cinema, a um concerto. Ir jantar fora, sem ser na varanda.Voltar ás minhas aulas de yoga.

Acho que vou ficar mesmo feliz quando retomar o meu ritmo semanal de viagens e até admito vir a ter saudades dos aeroportos (não, ainda não aconteceu.)

Precisávamos de parar para pensar. Para estar em família. Para passar tempo com os nossos e principalmente, connosco. De fazer uma limpeza interior (não podia deixar de ser, acalma-te distúrbio obsessivo compulsivo).

Obviamente que não precisávamos de uma pausa à custa de perda de vidas, de tantas vidas.

Mas o Universo tem os seus mistérios.

O mundo não vai voltar a ser o mesmo. O mundo que conhecemos, acredito piamente, vai mudar de forma drástica.

Nada vai voltar a ser como era antes.

Mas mudados ou não, vai ficar tudo bem no fim. Acredito.

E se ainda não está tudo bem, é porque ainda não acabou.

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