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Contos sem nó

As minhas histórias

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01.05.22

Dia da mãe


Lila

A minha mãe não era do tipo de pessoa que organizava festas e convidava mil pessoas. Como exemplo, basta referir que só me lembro de ter tido uma festa de aniversario, para a qual convidei uma amiga da escola e uma vizinha, dez anos mais velha do que eu. Uma única festa. Mas nunca deixámos de ter um jantar em família, normalmente num restaurante, e presentes de aniversario. A minha mãe adorava celebrar todas as datas, mesmo que apenas com decoração, a comida típica, um presente, e nós os da casa, presentes. Também não sou festeira, mas adoro que cada uma das datas seja lembrada. Aprendi isso com ela. O São Martinho tem que ter castanhas e água pé, os Santos Populares, sardinhas e decoração festiva, dia dos namorados, a casa cheia de corações, etc

Por isso me custa tanto que o meu filho não ligue nenhuma, a nenhuma data. Não lhe consegui passar absolutamente nada, nem meu, nem da avó, que infelizmente não conheceu.

Hoje de manhã ganhei de presente do dia da mãe um beijinho e um abraço. Efusivos, mais do que o normal. E não se falou mais nisso. Bem sei que o dia da mãe aqui já se celebrou em Março, mas em Março recebi o mesmo entusiasmo.

Eu adoro beijos e abraços do meu filho. Juro. Ate porque com a idade dele, vão sendo mais raros do que quando era pequeno. Mas também gosto muito que se lembrem da data, que percam tempo à procura de um presente, que a celebração tenha importância. O meu marido sempre teve essa preocupação mas de há uns tempos para cá, deixou de se ralar. E era do tipo de pessoa que organizava fins de semana, férias e passeios. Passou-lhe essa febre. Talvez porque agora vivemos num  ambiente de férias em permanência.

Tudo isto para dizer que fico triste. Não que eu seja a melhor mãe do mundo e mereça todas as comemorações, longe disso. Fui mãe apenas de um, por decisão própria e consciente. A sociedade e a família vêm as mães de apenas um como egoístas, as que não quiseram ter mais trabalho, as que se puseram à frente. Talvez seja verdade.E eu lido bem com isso. 

Só tenho pena que em adulto, o meu filho vá lidar assim com as datas comemorativas e a minha futura nora acabe por pensar que a culpa foi da mãe dele, que não o educou assim. Tal como eu penso que a  minha sogra não incutiu nos filhos a organização e a mania das limpezas. Passados mais de vinte anos de casamento, e quase 30 de namoro, tenho que admitir que não consegui modifica-lo. E não foi por falta de tentativa, nem de exemplo Ja tenho mais anos a viver com ele, do que a minha sogra teve. Portanto, não deverá ter sido culpa dela.

O dia foi passado na praia. Ao final da tarde fomos jantar ao Ripe Market. O marido ainda me tentou impingir uma bugiganga qualquer de uma qualquer barraquinha e dizer que era prenda do dia da mãe. Mandei-o bugiar.

Para o ano têm mais duas oportunidades de fazer a coisa como deve ser. Nem toda a gente pode dizer o mesmo.