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Contos sem nó

As minhas histórias

Contos sem nó

As minhas histórias

14.07.19

Carla


Lila

Foram seis meses, desde o diagnostico. Sabíamos que tinha mau prognostico mas tu sempre acreditaste que ias dar a volta por cima. Não podias deixar a tua filha sem mãe. Agarraste-te à vida com unas e dentes, mas o maldito cancro não te deu tréguas. Correu sempre tudo mal. Os tratamentos, todo o tipo de complicações possíveis. Internamentos, inúmeras limitações a continuar o tratamento. Acompanhei-te diariamente nos últimos dois meses. falávamos de manhã e a tarde. Quando não ligava eu, ligavas tu. Choramos muito pelo telefone, nos dias maus e riamos muito nos idas bons. Fui visitar-te faz hoje 15 dias. E tive uma sorte do caraças porque nesse dia estavas sem dores, sem vómitos, tinhas boa cara. Já sem o teu longo cabelo e inchada da cortisona, mas eras tu. Pude despedir-me. Eu e tu sabíamos que era uma despedida. Partiste na quinta-feira. Nessa noite sonhei que te tinha tirado da cama do hospital e andávamos as duas a passear, tu numa cadeira de rodas, para não te cansares, o cabelo longo e escuro todo lá. No final, mesmo antes de acordar, deste-me um abraço.

Nessa manhã soube que tinhas desistido. Acredito que viste despedir-te nos meus sonhos.

Fui para Matosinhos nessa tarde e estive com a tua família nessa noite e durante o dia de sexta. Pude abraçar a tua filha, dar-lhe colo e mimo. Pude consolar o teu pai, o teu irmão e o teu marido. Todos desfeitos com a tua partida. Dezenas de amigos estiveram lá, para te homenagear. Que duro foi ver-te partir, minha amiga. Que duro foi saber que acreditaste ate ao fim que isto não ia acabar assim. 

E que triste é continuarmos a vida normal. Sabendo tão bem que tudo isto é efémero, que estamos de passagem. 

Ate sempre, Carla. Vais fazer-nos muita falta.