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Contos sem nó

As minhas histórias

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09.05.18

Ainda me parece mentira


Lila

Já perdi muitas das minhas pessoas. A primeira perda de todas, a que me deixou marcas que não se conseguem apagar, foi a da minha mãe. Era demasiado nova. Eu e ela. A forma como nos deixou também não foi suave. A  carga psicológica e física de conviver com um cancro, acaba por nos deixar para sempre receosos, não que nos calhe a nós, mas que calhe a alguém muito perto de nós. Outra vez. O meu marido perdeu o melhor amigo há uns anos, no surto mais violento da gripe A. Pareceu-nos incrível mas com o tempo, fomo-nos conformando com a sua ausência. Olhando para  as fotos com menos revolta e mais carinho. Acontecerá com certeza com o meu amigo Nuno. Mas hoje, ainda me parece mentira. De cada vez que vejo um mil folhas, que olho para a secretaria dele no escritório ou que vejo as mensagens que ainda estão no meu telefone. Parece-me mentira, uma brincadeira de mau gosto que ele nos fez e que logo, logo, vai aparecer a dizer "Ah ah, estou aqui, enganei-vos bem enganados, seus totos!"

Esta geração, a minha geração,  lida com um luto adicional que não se vivia antigamente. Ter o numero de telemóvel guardado, mensagens de texto, de whattsap, facebook e instagram. São demasiados registos para apagar, um luto electrónico difícil de gerir. 

A mim, parece-me que se apagar de vez o que tenho dele, mais uma parte de mim, da nossa amizade, se perde.

Mantenho o meu telefone na ilusão de que a partida que ele nos está a fazer, vai mesmo acabar em breve.