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Contos sem nó

As minhas histórias

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22.05.20

Acreditar


Lila

Esta tem sido das semanas mais duras da minha vida. Perdi a minha mãe aos vinte anos, depois de dois anos de luta contra um cancro agressivo. A noticia da doença da minha mãe foi das vivencias mais difíceis que tive que suportar e todo o processo, uma agonia pautada pela impotência. Depois disso, nunca mais nada me fez sentir tão minúscula.

Esta semana a minha irmã mais nova, a caçula, a que criei como se fosse minha filha, deu entrada no Hospital na segunda-feira, gravida de 35 semanas e com uma cólica renal. Tinha muitas dores, vómitos, falta de ar. Pensamos até que fossem contracções, mas não eram. Ficou internada. Monitorizada com CTG. Na terça-feira, sem conseguirem abrandar as dores, decidem fazer uma pequena intervenção cirúrgica. Um dos ureteres de um dos rins estava obstruído, ou apenas a ser bloqueado pelo bebe. Tinha que se colocar um stent para que a urina acumulada e que causava as dores, pudesse sair. O nosso medico obstetra disse-me que havia pensado em fazer a cesariana, mas era muito cedo e o Matias teria de ir para a incubadora. Não valia  a pena. procedimento simples este do stent. Depois logo se faria a cesariana no tempo certo.

Á hora da entrada no bloco falei com ela, assim como durante toda essa tarde. Tinha muitas dores, estava muito rouca. Não conseguia quase falar. Por causa do covid estava sozinha.

E o pior aconteceu. Desencadeou-se o parto. O nosso medico foi para o Hospital, o CTG mostrava sinais de sofrimento do bebe. Cancela-se a cirugia, marca-se bloco para cesariana. A ultima vez que falei com a minha irmã, disse-lhe que fosse tranquila. Já vinha ai o Matias e ia tudo ficar bem.

Quando saísse da sala de partos, eu estaria no quarto à espera dela. 

A cesariana aconteceu e o Matias nasceu no dia 19 de Maio, depois das 9 da noite, com 2850g e 49cm, mas ainda assim com possibilidade de incubadora. Mãe e bebe estavam bem, segundo o nosso medico. Descansei.

No dia 20, de manhã, despertamos com a noticia de que a minha irmã estava nos cuidados intensivos, sedada e ventilada. Em poucas horas, depois do parto, fez uma pneumonia, com origem na infecção renal. Está há 48 horas em coma induzido. Ontem colocou o dito stent porque afinal, não era o nosso Matias quem lhe bloqueava o uréter. Será um calculo, não sei bem. 

O Matias esta na incubadora, também ventilado. O meu cunhado consegui vê-lo ontem, finalmente, e só depois de um teste covid negativo. Temos por fim, fotografias do nosso menino. Eu chorei como uma Madalena quando as vi. Não é um prematuro normal, parece de termo, com as bochechas iguais à irmã e à mãe. Mas os pulmões não estavam preparados ainda para esta chegada abrupta.

Meu querido Matias. 

A minha irmã continua a lutar pela vida, alheia a que o Matias precisa dos seus braços ali quase ao lado, na neonatologia, dentro da pequena incubadora. A minha irmã continua a lutar pela vida e espero que saiba que as irmãs estão aqui, (porque não podem estar lá a segurar-lhe a mão, maldito Covid) à espera de dar-lhe a ela também, o colo de que precisa.

Tem sido difícil digerir toda a situação. Como é que se passa de estar numa situação "normal", a necessitar de um stent para uma sepsis em poucas horas. É dificílimo afastar os maus pensamentos.

Esta tarde, recebi estas flores. Sem identificação. Com um único cartão que dizia ACREDITAR.

Percebi de imediato que o meu anjo da guarda, porto de abrigo de muitos e muitos anos, a minha melhor amiga, me enviava flores para me dar esperança.

Não tenho palavras para lhe agradecer tudo o que tem feito nestes últimos dias. Enquanto eu tento tolerar a minha dor,  gerir a dor do meu pai, da minha irmã mais velha, da minha sobrinha, também gravida, e a da irmã do Matias, a minha sobrinha mais doce, que todos os dias quer falar ao telefone com a mãe.

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Marisa, agarra-te à vida, minha irmã. Precisamos de ti. Precisamos das tuas gargalhadas, das tuas piadas tontas, da tua alegria contagiante.  O pai precisa de ti, da sua filha mais nova, sempre a mais mimada. Os teus filhos precisam do teu colo insubstituível.

Agarra-te à vida irmã, por favor.

Tal como te prometi, vou estar à tua espera.

Mas volta depressa.

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