Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Contos sem nó

As minhas histórias

Contos sem nó

As minhas histórias

02.05.11

do dia de ontem...um desabafo.


Lila

 Não me surpreendeu que tivesse sido uma valente trampa, porque desde que sou mãe, a coisa repete-se.

Não pelo meu filho, coitadinho, que foi um amor e passou o dia todo comigo.

De vez em quando vinha dar-me beijinhos e eu contava-lhe histórias de quando ele era bebé.

E ele ria-se muito, ás gargalhadas, muitas vezes a tentar esconde-las de mim, por achar que não devia rir-se do pobre bebé João Afonso, como se estivéssemos a falar de outra pessoa que não ele.

E nesse aspecto foi bom, que melhor companhia pode pedir uma mãe que não a do seu filho?

Mas, infelizmente, o pai do meu filho não gosta deste dia, sente-se no direito de não gostar, de não valorizar e de não  compreender que tanto eu como o filho gostemos e valorizemos.

A prenda da minha sogra, que é sempre comprada por mim, lá ficou, á espera de ser oferecida.

Tanto o dia do pai como da mãe são difíceis para mim, é fácil perceber o porquê.

Em relação ao dia do pai e como nesse dia tanto eu como ele estamos no mesmo barco no que á falta de pai diz respeito, desde sempre que tento ultrapassar a falta que ele decerto sentirá nesse dia, mimando-o.

Estamos juntos há 18 anos e há 18 anos que celebramos juntos o dia do pai, como pai dos meus filhos que eu tinha a certeza que seria.

Não é preciso comprar grandes presentes, nem fazer grande alarido.

Mas estou lá, a desejar feliz dia do pai, a organizar um jantar ou almoço juntos, a assinalar a data, a dizer, deixa lá, a nós calhou-nos um pai estragado, mas olha, estou eu aqui e tu és, foste, e serás o melhor pai do mundo. E na minha vida, já que não tenho um pai presente , tu ocupas, para além de muitos outros, também esse papel, ou não tivéssemos crescido (tanto) juntos.

E pronto, eu não sei se amenizo a dor que deve sentir por não ter pai há tanto tempo, mas eu tento que o meu amor infinito pelo grande ser humano que é, o compense.

Já no dia da mãe, a coisa fica diferente.

Tornei-me mãe há 7 anos atrás, grávida do meu JA.

E desde essa altura para cá, só tive um dia da mãe em que recebi um presente dele, em que foi assinalada a data lá em casa.

Nesse primeiro dia da mãe em que estava grávida, foi a minha irmã mais velha que me ofereceu um perfume para grávidas.

E houve outro, há 3 anos, em que o meu marido me ofereceu um relógio.

Nos restantes, ás vezes, até se esquece da data.

Noutros, como foi o caso de ontem, faz questão de o desprezar, esteve ausente todo o dia, sabendo á partida que eu vou ficar magoada.

E eu fico a pensar, se fosse eu que tivesse alguma coisa planeada e percebesse, nem que fosse por um olhar que ele ficaria magoado com a minha ausência, bolas, nem que fosse a coisa mais especial do mundo, eu não mexia um dedo e ficava.

Valia  a pena magoar?

Mas, não, a cabeça daquele homem não funciona assim.

Se há alguém que pode ter raiva ao dia sou eu, que não tenho mãe.

Não vou dizer que não me custa não poder celebrá-lo com ela, não vou negar que ontem chorei muito ao lembrá-la.

E de cada vez que via reportagens de mães e filhas lá começava o pranto.

Quem me conhece  sabe que basta falar dela e as lágrimas soltam-se descontroladamente.

São muitas as saudades que se agonizam nestas datas.

Por isso me custa tanto.

Pela ausência dela e por pensar que um dia também eu posso faltar precocemente ao meu filho e aterroriza-me pensar que poderá sofrer o mesmo que eu sofro.

Porque este dia não são os presentes, nem as coisas materiais que importam.

É apenas o facto de nos fazerem sentir especiais, porque aqueles que mais amamos estão ali, a dizer que sim, que vale a pena esforçarmo-nos, que o nosso coração de mãe é o mais doce, que a vida deles não fazia nehum  sentido sem a minha por perto.

Dia da mãe para mim é isso.

Obrigada, meu filho por teres estado por perto. Ontem e sempre.

(um dia, daqui a muitos anos, quando a vovó já tiver partido, o papá vai dar valor (tardio) a este dia...)