Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Contos sem nó

As minhas histórias

Contos sem nó

As minhas histórias

23.03.11

Das pessoas fantásticas


Lila

Hoje tive outro dia horroroso.

Há fases muito más nas nossas vidas, agarro-me ao facto de serem apenas coisas de trabalho e não pessoais, mas de qualquer forma, o meu feitio dá-me para sofrer muito com o que se vai passando á minha volta, o peso destes problemas arrasa comigo.

Ao final da tarde, no escritório de Madrid, deu-me uma coisinha má e estava ao telefone, a falar em português, absolutamente irritada.

A empregada da limpeza, Carmen, como a minha mãe, a minha avó e a minha irmã, dizia baixinho a uma das nossas delegadas:

" Mira, que enfadada está hoy. No entendo nada, pero sea que lengua sea, se nota que está enfadadissima, la pobre."

A minha colega respondia, que sim com a cabeça.

E quando desliguei o telefone, escritório já vazio, pegou-me por um braço e disse-me:

" Venga, vamos de copas, lo necesitamos."

E fomos.

Ao segundo copo de vinho branco, já eu arrastava as palavras.

Rimos que nem umas perdidas, falámos de tudo, mandámos o trabalho á merda.

E eu tive que pedir umas tapas, que sem elas, possivelmente que já nem me levantava da cadeira.

E o bem que me fez, desanuviar um bocado, pensar em nada e em coisa nenhuma, rir de tudo e falar de nada, ao mesmo tempo que falámos de absolutamente tudo. De homens, de mulheres, de clientes bons e maus, dos filhos que ela não tem e que quer ter, de família, de amigos que perdemos, de que as empresas não têm alma.

E a nossa ficou limpa, imaculada.

Amanhã é outro dia.

Chove muito aqui em Madrid, mas estou segura que amanhã o Sol vai nascer outra vez e tudo me vai parecer mais fácil.

(ou então não, e isto é o vinho a falar...)