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Contos sem nó

As minhas histórias

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10.12.10

O meu fado


Lila

Oito da madrugada e eu a entrar num táxi.

Ao volante, um daqueles machos absolutamente latinos a que me fui acostumando a ver por estas terras.

Como banda sonora da minha viagem, o flamenco mais triste do Universo.

E o homem cantava, enquanto me levava para dentro do transito, que não andava.

As letras daqueles flamencos absolutamente dramáticos, cantados sempre pelo mesmo par de vozes masculinas lamechas e aciganadas, como convém ao flamenco,  variavam entre “Eu tenho uma amante, amo-a diariamente, não é pior do que tu, é bonita, é linda, faz-me suspirar…” e depois de uns quatro minutos a tratar a sua esposa abaixo de cão, termina com um “ vou apresentar-te a minha amante…é a música.”

Acontece que até chegar á ultima palavra, já eu estava cheia de uma azia terrível e pensava com todas as minhas forças, que marido meu não fazia aquela gracinha, porque quando quisesse explicar-me que a amante era a música, já não podia, porque tinha a boca feita num oito e os queixos partidos.

E a saga continuou, em meia hora agonizante, com musiquinhas bonitas sobre “amas de casa”, vulgo domésticas, que mulheres tão sofridas, as ultimas a deitar e as primeiras a levantar, sobre “abuelas” que para além de serem velhas também liam cartas, julgo eu que de tarot, porque se são das normais, não seria tão interessante para a letra da música, poderia só ser fora do vulgar porque significava que a velha via bem, inclusive para ler.

Para terminar o percurso ainda fui brindada com um tema cantado pelos mesmos senhores, fazendo-se passar por uma criança de dez anos que sofre com a separação dos pais.

E sonha que se juntem e que se beijem outra vez.

Demorei uma meia hora a chegar ao meu destino e quando sai do táxi, só me apetecia chorar.

E depois ainda dizem que é o fado a canção mais triste que existe.

Olhem que não, vão por mim, que eu estou a toque de  Prozac desde manhã.