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Contos sem nó

As minhas histórias

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16.05.10

Cabelo.


Lila

O meu filho tem o meu cabelo.

Na espessura, na cor, nos caracóis.

E o meu marido tem paixão pelo cabelo dele, assim como tem pelo meu.

E essa paixão revela-se sempre que o cortamos, eu e ele.

Para cortar o cabelo do meu filho, tem que ser á má fé, pela calada, corta-se e depois já está e pronto.

Ele refila, refila, mas depois habitua-se e entretanto o cabelo cresce outra vez, que nisso o rapaz é mesmo igual a mim.

Comigo acontece o mesmo, e eu só corto as pontas, mas mesmo assim, levo sempre um raspanete (excepto das ultimas vezes, em que me deu a travadinha e cortei o cabelo pelos ombros).

Isto para explicar o que aconteceu hoje.

Ou então para não explicar, que o que aconteceu não tem mesmo nenhum sentido.

De manhã, o meu marido decidiu cortar o cabelo ao filho.

Estava precisado, é verdade e eu já o devia ter feito, mas confesso que entre viagens e assaltos, não tive tempo.

O homem teve um ataque e achou que ele é que cortava o cabelo ao míudo, com a máquina que temos cá em casa e com a qual ele corta o seu próprio cabelo.

A última vez que teve esta iniciativa com o filho, fez-lhe uma pelada de tal forma, que o miúdo andou com o cabelo rapado  e com ar de monge para mais de um mês.

E lembrando esta efeméride, eu supliquei para que o corte se desse num local próprio.

Não resultou.

O corte avançou.

E da casa de banho do meu quarto, saiu um JA desfigurado, com um pai encavacado.

Que o pente não tinha sido o mais certo, que tinha ficado um bocado mais curto do que devia...mimimi.

Eu até chorei.

 

O desgraçado do rapaz está com ar de quem saiu de um campo de concentração, em suma, não tem cabelo.

 

E foi aqui que eu tive um ataque de nervos e disse o que devia e o que não devia.

Porque se há defeito que o meu homem tem é não admitir que errou.

E não suporta que se lhe apontem os erros.

Bastava dizer que sim, que tinha ficado mal, que fizera asneira e eu calava-me.

Mas, não, sai-lhe um não está mau, até está bonzinho, não é preciso ficares assim, não tens razão... e eu passo-me.

E com este ataque, fiz com que o JA pusesse um boné na cabeça e já não o quisesse tirar com vergonha do cabelo (ou da falta dele).

Almoçámos de boné e nada o fazia mudar de ideias, que tinha vergonha.

Só um gelado o convenceu e ainda assim, passou o tempo a mexer na cabeça, que estava esquisito, que picava, enfim...

Com o passar do dia, lá deixou de falar disso e nós já nos fomos habituando á carecada.

 

A ver vamos como vai ser amanhã na escola. Estou certa de que de um ou outro comentário não se livra.

 

E foi assim que nós, maravilhosos pais, fizemos duas asneiras num só evento.

Pobre criança.