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Contos sem nó

As minhas histórias

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25.04.10

25 de Abril


Lila

Quando eu era pequena, o 25 de Abril tinha um significado especial. Não se tratava apenas de mais um feriado.

Tendo morado quase sempre numa freguesia comunista, as comemorações eram levadas á séria.

Havia fogos de artificio á meia noite, e durante todo o dia eram lançados morteiros, não fosse o pessoal se esquecer em que dia estava com o passar das horas. Enfeitavam-se as ruas.

Havia sempre bailarico na Sociedade  Recreativa e senhoras a distribuir cravos vermelhos.

Faziam-se actividades desportivas pela manhã e almoçaradas a seguir.

Os meus pais, invariavelmente, recordavam esses dias em 1974. A minha irmã mais velha só se lembrava de não ter ido é escola e de terem passado desenhos animados o dia todo na televisão a preto e branco.

Os meus pais tiveram medo que se instalasse uma guerra, frescos ainda do terror da colonial, onde o meu pai tinha prestado serviço militar e de onde regressara felizmente ileso. Ficaram colados ao rádio, á espera de noticias.

Os meses que se seguiram foram muito duros, com rusgas a casas de particulares, e especialmente á dos meus pais, já que o meu pai fora nomeado regedor da terra por essas alturas.

A minha mãe contava que, em 75, tinha eu acabado de nascer, a PIDE levou o meu pai a prestar declarações e pensaram que já não voltava.

Que ficava por lá preso, bastava que  alguém tivesse inventado e  feito alguma denuncia de que colaborava com o antigo regime (coisa que acontecia com a maior das facilidades porque se dava crédito aos bufos...) e ficaria a mofar na prisão como tantos outros, naquele clima de suspeita de tudo e de nada que então se vivia.

Sei que nesse dia, esta então recém nascida ia ficando sem leite materno, por causa dos nervos que assolaram a minha mãe.

No 25 de Abril da minha infância, os  meus pais faziam questão de que soubéssemos o que fora viver sem liberdade, no regime de Salazar.

Eu cresci com essa consciência, embora não fosse nascida na altura.

Mas tenho uma ligação forte ao 25 de Abril.

É que tendo nascido de tempo completo, em Janeiro de 1975, fui  concebida em Abril de 1974.

No calor da revolução.