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Contos sem nó

As minhas histórias

Contos sem nó

As minhas histórias

09.12.08

RPM


Lila

Estive indecisa durante muito tempo, mas depois decidi ir.

Não tinha alternativas apetecíveis e  como sou obstinada e quero mesmo cumprir este programa e ir ao raio do ginásio três santas vezes por semana, lá me arrastei para uma aula de RPM.

(A obstinação tem duas razões absolutamente plausíveis-a primeira,  pago para lá de uma pipa de massa, a segunda, é a unica coisinha que ainda faço sozinha, sem filho sem marido, para me sentir bem e esvaziar a cabeçita).

O RPM é uma aula de alta performance, onde uma cambada de malucos pedala frenéticamente sem sair do mesmo sítio, ao som de música em altos berros.

Fiquei a transpirar só de vêr as bicicletas.

O meu rico rabiosque até me puxava para trás, adivinhando as dores que o esperavam.

Lá entrei e claro, queria passar despercebida ao ficar numa bicla lá para trás, longe das vistas do professor e dos outros alunos.

Estava eu a montar-me na dita, quando uma colega na fila da frente (mesmo na frente do professor) me chamou para o lado dela.

(Conhecemo-nos das aulas de Body Step, essas sim, aulas de cair para o lado, mas sem dores de rabo associadas e altamente divertidas.)

Lá fui eu, a arrastar-me até á fila da frente, só para ficar ao lado dela.

A aula começou e com a batida da música, começou tambem a pedalagem...

No ínicio, parecia que ia passar depressa e depois de pedalar um bom bocado, até já mais animada por estar a correr bem, olhei para o relógio da sala e tinham passado uns maravilhosos  e longos...5 minutos.

Só faltavam 45. Desanimei um bocadito.

Comecei a olhar para as caras dos outros, só para tirar a mente do sofrimento.

Aquela malta vibrava com aquilo como eu vibro com pasteis de Belem quentinhos, cheios de canela.

Davam gritos, suavam em bica, de sorriso nos lábios e bicicleta agarrada ás unhas.

Fui-me entusiasmando, sem perceber sequer porque.

A aula acabou e eu fui direitinha ao banho turco, outro miminho que agora me dou, no final das aulas, até porque eu pago isso tudo e nunca aproveito nada.

Passadas algumas horas, estou a escrever sentada em cima do meu fiófó, o que á partida me diz que não me dói assim tanto.

Amanhã, que ainda por cima começa com uma reunião, logo vos digo se fiquei sentada...

08.12.08

A casa da avó Júlia


Lila

 

 

Todos os anos, na época estival, a casa da avó Júlia enche-se de uma alegria que se julgara perdida com o tempo.
A casa, frente ao mar, é um solar antigo, estilo colonial, que albergou inúmeras gerações da família da avó Júlia, antepassados hoje espalhados pelas paredes das salas, em retratos ou quadros a óleo.
 
Com o passar dos anos, a família foi preferindo casas mais modernas e mais práticas, no centro da cidade, e a velha senhora foi ficando, de ínicio ainda com o marido e algumas tias eternamente solteiras, depois da morte destes, sozinha.
O solar é agora o local favorito dos netos para as férias de Verão, não só pela proximidade da praia, mas também pelo carinho e pelas brincadeiras quase infantis da avó Júlia.
 
A D. Júlia, hoje uma senhora idosa muito distinta, cuja idade se mantém num segredo indecifrável, espera ansiosa ano após ano que a Primavera dê lugar ao Verão e que os seus filhos cheguem para trazer as crianças ao solar.
Só nessa altura se sente verdadeiramente viva, disfrutando do prazer da companhia dos netos, revivendo cada sorriso da sua infância nos sorrisos de cada um deles, sentindo-se também uma criança entre eles.
 
Durante o resto do ano, reparte os seus dias por entre os passeios matinais pela praia, os filmes na televisão, o cuidado das rosas no pequeno jardim, que mantêm com esmero, e as longas tardes a tomar chá com as amigas.
No Verão, toda a rotina se altera e a avó Júlia dedica-se exclusivamente ao cuidado dos netos, descurando as rosas e também as amigas.
Este ano, os netos viriam desencontrados e a avó poderia disfrutar da presença de cada um deles, isoladamente.
 
 Joana tem apenas oito anos, sorriso traquina e olhos de um azul turquesa inconfundível.
Os cabelos loiros, umas vezes domados por ganchos de formas e cores diversas, outras soltos numa festa de caracóis, emolduram o rosto fino de Joana.
 
A sardas, odiadas pela menina, agravam-se no Verão com a vinda do sol.
A sua expressão é ainda de criança, ainda que os raciocínios rápidos e conversa fluente a façam parecer já adulta.
Joana adora a avó Júlia e por isso, as férias de Verão passadas no velho solar junto à praia, são sempre aguardadas com uma expectativa incontornável.
 
Este ano, Joana chegou ao solar com a mala cheia de livros e de sonhos, ao contrário dos outros primos que ainda carregavam bonecas e ursinhos de peluche.
O seu imaginário estava agora povoado de histórias e de contos fantásticos, um mundo descoberto recentemente através da aprendizagem das palavras.
Os livros tornaram-se, de um momento para o outro, os seus melhores amigos e únicos companheiros de aventuras.
 
-Avó, contas-me uma história?
Do cimo do velho sofá, depois de uma sessão de pulos que quase rebentaram as molas, e perante a permissividade cúmplice da avó, Joana olhava-a, ansiosa pela resposta.
- Claro, querida, veste o pijama e lava os dentes. Vou já aconchegar-te a roupa na cama e contar-te a história.
-Boa! Não demores, avó!
Joana saltitou pelo longo corredor do solar, tectos altos e trabalhados, pequenos quartos e salas criteriosamente arrumadas, todos num estilo já fora de moda mas ainda elegante.
A avó Júlia terminou a fila de malha que improvisara durante a tarde, na tentativa de passar algum tempo junto da neta, que lera desenfreadamente durante horas. Arrumou as lãs e as agulhas no cesto de verga e    levantou-se da cadeira de recosto, dirigindo-se ao quarto que Joana ocupava, sempre que ficava no solar.
-Então, estás pronta? Lavaste os dentinhos? Não queres ficar com bichinhos na boca, pois não?
A avó Julia falava num tom maternal, por vezes demasiado infantil para a idade da neta, mas o que fazer? Via-os sempre como meninos muito pequenos, ainda que crescessem a olhos vistos a cada Verão que passava.
-Não, avó, lavei bem os dentes! Tens cá algum pijama meu?
-Vê na gaveta da cómoda, talvez tenha ficado algum da última vez...
Joana era sem dúvida a neta favorita da avó Júlia, o comportamento da garota fazia-a sentir um orgulho que não aprendera a sentir quando fora mãe.
 
 
-Achei um, avó! Contas-me agora a história?
-Que história queres hoje?- disse a avó, já com o pensamento no seu rol imenso de contos e fábulas.
-Hum, deixa-me vêr... pode ser a da casa assombrada!
- Essa não é uma história para dormir, Joana. Da última vez que te contei essa história, vieste a meio da noite para a minha cama...Tiveste pesadelos e tudo!
- Isso foi há muito tempo, avó! Agora já sou uma menina crescida...
- A tua mãe fica zangada, Joana, se descobre que te conto histórias que te tiram o sono!
-Eu não conto à minha mãe... Tu vais contar?
Os olhos azuis de Joana brilharam ainda mais que o habitual e nesta troca cúmplice de olhares, a avó cedeu, uma vez mais, aos pedidos da neta predilecta.
-Pronto! Casa assombrada, seja!
-Espera, avó, não comeces já! Deixa-me ir buscar o Teddy, assim tenho companhia na cama...
Os caracóis de Joana voaram pelo quarto em busca do ursinho de peluche que em tempos deixara ficar na casa da avó, mais em sinal de uma maturidade encapsulada do que por esquecimento.
-Teddy, hem? Já estás a ficar com medo... Coitado do ursinho, hoje fica sem pêlo...
A avó sorriu, em jeito de desafio.
Joana ignorou a provocação e ficou muito quieta, segurando o urso com um dos braços e os lençois com a mão livre, numa postura típica de quem se prepara para o pior, num misto de querer e não querer.
-Estou pronta- disse baixinho- podes começar...
-Era uma vez...uma velha, muito velha, que vivia numa casa de aspecto abandonado e muito grande, num bosque distante...
-Essa velha é mais velha do que tu, avó?
-Hã? Sim, Joana, muito mais velha. Andava toda curvada, tinha muitas verrugas e o cabelo todo branco, sempre preso atrás. Esta velha...
- O teu cabelo é branco, avó?
- O meu cabelo é pintado, Joana, a avó também já tem alguns cabelos brancos... o desta velha é mesmo todo branco e brilhava no escuro da casa onde morava.
 À volta desta casa existia um grande jardim, cheio de árvores de folhagem escura e densa, ervas muito crescidas e um cemitério nas traseiras, onde de quando em vez se viam sapos gordos e feios, saltitando por entre os túmulos.
 
 
-E esse jardim tinha baloiços, avó?
-Baloiços?
A avó abanava a cabeça enquanto tentava acabar a história.
-Não Joana, não tinha baloiços! Túmulos, apenas túmulos. A velha muito velha raramente saía de casa, e quando o vazia, não havia no bosque um único animal que não se escondesse...
-E...ela tinha amigos, avó?
-Não, Joana. Não tinha amigos, vivia sozinha no bosque. Por ser muito feia e esquisita, e também porque se constava entre os habitantes do bosque que a casa seria assombrada...
-Ela não limpava a casa, pois não, avó?
-Não, querida, não limpava....
A avó Julia perdia agora o seu tom, habitualmente paciente e calmo.
-A casa assombrada estava repleta de teias de aranha, e havia bichos por todo o lado...A velha vivia ali feliz, apenas com o que tinha e...
-Ela não fazia compras, avó?
-Fazia, Joana, no supermercado do bosque! Ou então, não! Pegava no computador e fazia as compras do mês pela internet...
A avó Júlia perdera definitamente toda a paciência.
Joana olhou a avó levantando a cabeça da almofada, como que para ser melhor escutada, mas ainda incrédula:
-Avó, isso não é possivel!Achas que ela tinha um computador...?
A avó Júlia suspirou, num misto de cansaço e espanto.
-         Mas, afinal... queres ouvir a história, ou não?
A neta, assustada com o repto, voltou a deitar-se na cama e manteve-se quieta, de olhar vivo, tentando não interromper a avó.
Este silêncio fez com que a avó Júlia recuperasse a paciência e voltasse a encontrar o rumo da história.
-Na casa assombrada, escondida num dos muitos quartos, vivia uma criatura estranha, misto entre animal e pessoa, que a velha alimentava e cuidava.
Alguns diziam que teria sido fruto de um feitiço mal sucedido e que a velha, por pena, o tinha mantido por perto.
Esta criatura, diz quem a viu pelo bosque, andava sobre quatro patas, mas apesar do corpo coberto de pêlos, tinha feições humanas...
 
A avó Júlia parou a história, estranhando o súbito silêncio e observou a neta com atenção, subindo os óculos, já caidos sobre a ponta do nariz.
Joana dormia profundamente, apertando o ursinho de peluche contra si.
A avó Júlia aconchegou-lhe a roupa da cama, apagou a luz do candeeiro e, pé ante pé, dirigiu-se ao quarto para dormir.
Já na cama, olhou em redor e , á cautela, deixou a luz do quarto acesa.

A história da casa assombrada ainda hoje mexia com ela...

08.12.08

All I want for Christmas...is you!


Lila

Hoje é um daqueles dias em que, apesar de acompanhada, me sinto terrivelmente sozinha.

Saí para tomar um café e deparei com  aquele frenesim das compras de Natal, a confusão nas lojas, os encontrões nas ruas.

Hoje não estou com disposição para nada disso.

Tal como não estava ontem, nem antes de ontem, nem nos dias anteriores.

Sinto a tua falta, apesar de me custar admitir.

Fico dividida entre o querer estar aborrecida e magoada, porque é justo que esteja, tenho razões mais do que sólidas para mantêr o meu silêncio por uma década e ainda assim , não me sentir pronta para uma nova etapa..., e o querer saltar para os teus braços e dizer-te que te amo.

Se há por aí um Pai Natal, vou dizer-lhe que me portei bem, que me esforçei muito e que ainda assim, ninguêm reconhece os meus esforços.

Não quero prendas, nem nada material.

Quero sentir paz no meu coração, deixar entrar a alegria, as boas vibrações e sentir que me amas.

Na verdade, o meu pedido é bem mais simples. Quero-te a ti, de corpo e alma, disposto a tentar que isto resulte.

07.12.08

Comer, orar, amar


Lila

 

Excelente livro de Elizabeth Gilbert.

Estou completamente viciada nele, antes mesmo de começar a lêr, porque vi esta autora na Oprah (foi um dos livros do Clube do Livro da Oprah), e a forma como falou do livro e da sua história, fascinou-me de imediato.

O guião é simples, uma mulher na casa dos 30 (34 para ser mais exacta, o que até tem sido engraçado porque vou fazer 34 em breve) descobre que não quer ser mãe, não quer estar casada, nem viver com o marido na fabulosa casa que recentemente adquiriram em NY.

O seu dilema é enorme, até porque não se imagina a desfazer uma vida em comum, mas ao mesmo tempo não quer continuar a ser pressionada para ser mãe.

Decide então divorciar-se e este processo arrasta-a para uma depressão profunda e para uma crise financeira.

Superada a fase mais dificil, inicia uma viagem de um ano:

4 meses em Itália onde se entrega ao prazer de comer (e engorda 12 kg):

4 meses na India, onde se entrega á meditação;

4 meses em Bali, onde se entrega ao amor.

A sua escrita é fluente, carinhosa e divertida e faz-nos pensar, em cada palavra, no sentido da nossa vida.

Recomendo vivamente.

06.12.08

Natal


Lila

http://www.icicom.up.pt/blog/muitaletra/arquivos/005522.html

 

Èpocazinha irritante.

Hoje de manhã recebi uma mensagem de um primo a dizer que não vai "na carneirada da compra dos presentes e por isso ...risquem-me da vossa lista..."

Acontece que eu já comprei o presente dele...

Fquei sem saber o que pensar deste mensagem, mas efectivamente, esta coragem devia tomar conta de mim, um destes Natais.

Porque gasto rios de dinheiro a comprar prendas e prendinhas e prenditas;

Porque me irrito com o tempo que isso ocupa;

Porque me irrita têr que pensar no que comprar para cada pessoa;

Porque me irrito por não comprar coisas que me fazem falta com esse dinheiro;

Porque faço tudo isso sozinha (compro as prendas para a minha família e para a família do meu marido...);

E se ao menos recebesse uma cartinha a dizer "obrigada mãe Lila", como recebe o pai Natal...custava um pouco menos.

Perdeu-se a magia do Natal e isso entristece-me.

Gosto tanto de vêr o brilho nos olhos do meu filho quando olha para a árvore de Natal que ele me ajudou a fazer com tanto entusiasmo.

E como o coração dele fica quentinho ao imaginar como vai ser a noite de Natal, quando o Pai Natal comer as bolachas e beber o leitinho que lhe vamos deixar na cozinha, para se restabelecer da viagem...

Por essa restia de magia, vale a penar continuar este esforço materialista.

 

06.12.08

Contos sem nó: As minhas histórias


Lila

Uma vez mais, dou início a uma nova aventura que me dá enorme prazer e que nos ultimos tempos me tem assolado o pensamento todos os dias.

Escrever é terapêutico para mim.

Há dias em que estou a viver uma situação e a pensar na melhor forma de a descrever por escrito, o que  pode parecer estranho, mas  dá-me  alento para tentar uma vez mais.

Talvez precise mesmo deste espaço e o meu subconsciente me empurre para a escrita como forma de organizar as ideias e os sentimentos.

Há alguns meses comecei a acompanhar alguns blogs com assiduidade e percebo que realmente as pessoas se divertem ao fazê-lo, ainda que eu não concorde com a total exposição de fotos que é feita na maioria deles.

Criei um blog há uns meses atrás que acabei por privatizar pouco tempo depois.

Tornou-se um diário das minhas frustações, dos minhas tristezas e era de tal forma deprimente, que achei por bem não continuar.

Sofro do fenómeno "Florbela Espanca", ou seja, escrevo mais e melhor, sempre que estou triste.

Gostava muito de alterar isso, mas talvez seja algo que não está ao meu alcance.

No curso de Escrita Criativa que fiz em 2004, aprendi a escrever todos os dias, quer me apetecesse, quer não. Obviamente que o tempo desvaneceu essa vontade.

Que saudades tenho dos ensinamentos sábios do Prof. Urbano Tavares Rodrigues, que me deu o privilégio de lêr e apreciar durante alguns meses, os meus esforços literários.

As suas palavras de incentivo, ainda ecoam na minha cabeça.

Começo aqui as minhas histórias, reais ou imaginárias.

"Contos sem nó," é um titulo que me acompanha há muitos anos, gosto do trocadilho com "ponto sem nó", expressão usada quando se quer dizer que alguma pessoa não faz nada sem tèr uma segunda intenção. Se um dia escrever um livro decerto vai têr este nome, a menos que alguêm me convença de que não presta mesmo para título de um livro de contos.

A segunda intenção deste cantinho e divulgar alguns contos, sempre que me vá dando para isso.

A terceira é dar a mim mesma um espaço, sempre que a minha vida fique demasiada cheia.

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