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Contos sem nó

As minhas histórias

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06.04.10

A minha professora de piano


Lila

A minha professora de piano foi muito especial.

Durante os anos em que me ensinou, a nossa relação extravasou a dimensão professora-aluna e tornámo-nos amigas.

Nos últimos tempos em que estudei piano, passei uma semana na casa dela, em Portalegre.

Foi uma semana muito divertida (ainda hoje não sei como é que os meus pais me deixaram ir...).

Durante o dia estudava piano e estava sozinha (A São dava aulas no conservatório). O calor era abrasador naquela cidade,estávamos em Julho e lembro-me de sair de manhã á rua para tomar um café e a roupa se colar toda ao corpo.

Á hora de jantar, enquanto cozinhava, a São ouvia os meus progressos.

Ao serão, porque o piano já não se podia ouvir, saíamos.

A São travou uma luta comigo nessa semana, a de tentar que eu deixasse de a tratar por "você".

Não tinha sentido, mas eu não ocnseguia, por respeito, por hábito.

Uma noite, estava já deitada e muito sonolenta, a São perguntou da porta do quarto " Posso apagar a luz?".

Eu respondi instintivamente " Podes".

Acho que foi a única vez que o fiz sem forçar o trato. (A São pulou de contente!).

Essa semana marcou a minha vida. Nessa semana a minha mãe começou a ter sintomas da doença que acabaria por matá-la, dois longos e penosos anos depois. E eu lembro-me de lhe telefonar de cabines (nesses tempos não havia telemóveis...) e perceber que algo de errado se estava a passar. Para me proteger, esconderam-me a verdade, até regressar.

Nessa semana, ouvi mil vezes uma cassete no meu velhinho walkman. Uma cassete com " O mistério da vozes búlgaras", gravada pelo meu namorado, de quem estava separada por muitos quilómetros, mas muito perto no coração.

Tenho muitas saudades da São. Dos seus maravilhosos olhos azuis e do seu sorriso contagiante.

A São não foi a minha única professora de piano.

Mas foi entre todas, de quem eu mais gostei.