Ela tem trinta e poucos anos e ele também.
Os dois muito bonitos.
Ela numa cadeira especial, imobilizada, sem conseguir sequer segurar a cabeça, a babar-se, sem força em nenhum dos membros e sem falar.
Ele sentado ao lado dela.
A acariciar-lhe o rosto. A beija-la nos lábios.
A cantar-lhe ao ouvido Everything I do, I do it for you", acompanhado pelo telemóvel.
Percebi que deveria a musica deles (todos os romances têm uma banda sonora).
Conversava, contava coisas comuns, sem qualquer resposta. "Já viste, Raquel, não consegui abrir a porta, teve que vir uma menina...que vergonha, não é?..."
Ela não respondia, mas deve ter esboçado um sorriso, porque ele reagiu com animo á sua expressão.
E eu, a fazer companhia á minha tia de 85 anos, no centro de cuidados continuados onde está a recuperar e a fazer fisioterapia, a observar esta cena.
Com lágrimas nos olhos.
Estupefacta com a crueldade da situação.
Não percebi o que tinha aquela jovem.
Sei que entrou ontem.
Percebi que é algo muito grave e incapacitante.
Derreti-me com aquele amor.
E o meu coração ficou despedaçado.